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Por Henrique Romano Carneiro

Diretor Executivo da Escola São Domingos e membro do Comitê de Educação do ES em Ação.

Justamente quando a inteligência artificial amplia nossa capacidade de produzir textos e obter respostas, o Pisa 2025 revela dificuldades crescentes dos estudantes para compreender e avaliar o que leem. Essa combinação traz um desafio para a escola: quanto mais convincentes são as respostas produzidas por uma máquina, mais conhecimento e discernimento precisamos ter para julgá-las. Essa queda em Leitura mostra que a preocupação ultrapassa o Brasil e deve ocupar o centro do debate educacional.

O relatório “O desempenho brasileiro no Pisa 2025”, do Todos Pela Educação, é a base desta reflexão. O documento mostra que o Brasil permaneceu praticamente estável em relação a 2022 nos três domínios avaliados. Essa estabilidade, porém, ocorre em níveis muito baixos: 72% dos estudantes ficaram abaixo da proficiência mínima em Matemática, 51% em Leitura e 52% em Ciências. A distância entre o Brasil e a média da OCDE diminuiu, mas essa aproximação decorre principalmente do recuo dos países da organização, e não de um avanço expressivo da aprendizagem brasileira.

Em um mundo impactado pela IA, essas deficiências ganham consequências ainda maiores. Um jovem que não distingue uma opinião de uma evidência terá dificuldade para avaliar uma resposta automatizada, identificar uma conclusão indevida ou perceber a ausência de uma fonte confiável. A tecnologia pode apoiar o estudo, mas seu uso exige repertório.

O Espírito Santo tem razões para reconhecer avanços e motivos para ampliar sua ambição. Segundo o Inep, entre 2023 e 2025, o Ideb do Espírito Santo, considerando o conjunto das redes de ensino, passou de 6,3 para 6,6 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 5,3 para 5,4 nos anos finais e de 4,8 para 4,9 no ensino médio, alcançando os melhores resultados da série histórica. No Pisa 2025, o relatório do Todos Pela Educação registra médias de 419 pontos em Leitura, 383,8 em Matemática e 417,4 em Ciências para o estado. Esses resultados do Pisa abrangem diferentes redes de ensino, inclusive a privada, e não representam isoladamente o desempenho da rede estadual. São valores acima das médias brasileiras, mas ainda distantes das referências da OCDE.

Avaliar resultados por meio de indicadores sempre suscitará controvérsias. Em uma escola, numa empresa ou na gestão de um país, quem vive de perto a realidade do trabalho consegue apontar limitações, distorções e circunstâncias que os números não capturam. Na educação, diferenças socioeconômicas, perfis dos estudantes e características das avaliações exigem cuidado nas comparações. Reconheço essas fragilidades, mas entendo que elas não podem servir de justificativa para desacreditar uma ferramenta necessária ao aperfeiçoamento das instituições.

Por isso, o Brasil, os estados, os municípios, as redes e cada escola devem estabelecer com clareza quais referências adotam, de onde partem e quais resultados pretendem alcançar, com metas e prazos que permitam acompanhar sua evolução. Comparações nacionais e internacionais ajudam a ampliar essa perspectiva e a evitar a acomodação a parâmetros definidos apenas pela própria instituição. O progresso dificilmente será linear: haverá avanços desiguais, revisões de percurso e eventuais retrocessos. Ainda assim, precisamos conseguir verificar, ao longo do tempo, uma trajetória consistente de melhoria da aprendizagem, tanto para quem precisa superar defasagens quanto para quem já pode avançar além.

Saeb, Enem, Pisa e avaliações locais oferecem perspectivas complementares sobre a aprendizagem. O Saeb permite acompanhar o domínio de habilidades em etapas específicas da educação básica; o Enem avalia competências ao término dessa formação e é utilizado no acesso ao ensino superior; o Pisa examina como jovens de 15 anos mobilizam conhecimentos de Leitura, Matemática e Ciências diante de situações-problema. Já as avaliações locais permitem diagnósticos mais frequentes e próximos do currículo ensinado, orientando intervenções durante o ano letivo. Conhecer essas diferenças ajuda cada rede e escola a escolher os instrumentos adequados às perguntas que precisa responder, combinando o acompanhamento cotidiano com referências externas que permitam avaliar a evolução dos resultados e a ambição de suas metas.

Para isso, coordenadores e professores precisam conhecer as matrizes de referência, os descritores e as rubricas de correção, compreendendo sua relação com o currículo. Uma matriz avaliativa não esgota o currículo, mas ignorá-la também enfraquece o planejamento. Se esperamos que o aluno confronte fontes, justifique uma conclusão e aplique conhecimentos, essas exigências precisam aparecer nas aulas e nas avaliações cotidianas.

Para a gestão capixaba, isso significa aproximar o acompanhamento dos indicadores do trabalho pedagógico, com cooperação entre estado e municípios. Resultados devem orientar a formação docente e o apoio às escolas, especialmente onde se acumulam dificuldades. Uma média estadual crescente pode esconder alunos que continuam sem aprender. Por isso, é necessário observar a distribuição dos resultados, a participação nas avaliações e as desigualdades entre territórios e grupos sociais, oferecendo mais apoio a quem mais precisa.

Também devemos levar a sério os estudantes e as instituições que se destacam positivamente. O Todos Pela Educação alerta que, em cada domínio avaliado pelo Pisa, aproximadamente 1% ou menos dos estudantes brasileiros alcança os níveis mais elevados de proficiência. Alunos de alto desempenho precisam de desafios adicionais, investigação e aprofundamento. Escolas com resultados excepcionais merecem ser estudadas, considerando seu contexto e a possibilidade de adaptar suas práticas. Garantir o básico a todos e ampliar as oportunidades de excelência são responsabilidades simultâneas. O patamar mínimo não pode virar um limite para quem pode ir além.

Melhorar resultados de forma sustentada exige trabalho desde os primeiros anos escolares, apoio aos professores e revisão criteriosa do que não funciona. Isso requer paciência com o tempo da aprendizagem e cobrança sobre as ações de cada ano. O Espírito Santo pode preservar o que produz avanços, corrigir insuficiências e estabelecer um horizonte mais ambicioso. O compromisso que precisamos sustentar é fazer com que cada geração aprenda mais que a anterior, com apoio para quem enfrenta dificuldades e novos desafios para quem já avançou. É por esse resultado que devemos avaliar a educação que oferecemos.

Henrique Romano Carneiro. Foto: Acervo pessoal



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