
Numa mesa de almoço, entre amigos, um deles contou uma cena que não me saiu mais da cabeça. Ela estava na sala de espera de um médico, aguardando ser chamada, quando um homem ao lado começou a assistir a vídeos no celular. Sem fone. Num volume que a sala inteira podia ouvir, e o conteúdo era, digamos, pouco recomendado para aquele horário e aquele lugar.
Ela não disse nada. Só se levantou, foi até a cadeira ao lado da dele e sentou, como quem se sente à vontade para dividir uma cena que já era pública.
Ele reagiu na hora — irritado, incomodado, como se a inconveniente ali fosse ela — e perguntou o que ela estava fazendo tão perto.
Ela respondeu, tranquila:
“Achei que era para todos.”
Ele não desligou o vídeo. Ficou emburrado o resto da espera, como se a vítima ali fosse ele.
Gosto dessa história porque ela não precisa de discurso para funcionar. Não houve sermão. Ela só ocupou, com o próprio corpo, o espaço que ele já tinha ocupado com o som. Se ele havia transformado o vídeo em conteúdo coletivo, ela apenas aceitou o convite.
A reação dele, porém, não foi de constrangimento — foi de indignação, como se sentar perto fosse ousadia maior do que invadir o ouvido de quem só estava ali esperando um exame. Ele conseguiu, na mesma cena, ser o barulho e se sentir a vítima do barulho.
Uma paisagem cada vez mais comum
Essa cena deixou de ser exceção para virar paisagem comum.
Em mesa de restaurante tem gente que grita como se estivesse na própria sala — coitados dos vizinhos, que não foram convidados para o jantar mas acompanham a conversa inteira, até a fofoca.
Em avião, tem quem assista filme ou jogue com o som ligado, criança diante de tela no volume máximo, como se o corredor entre poltronas fosse extensão da sala de casa.
Tem o áudio de zap ouvido no viva-voz — duas pessoas berrando ao mesmo tempo, uma de cada ponta da ligação — porque escrever virou coisa do passado, e ouvir com o aparelho no ouvido, aparentemente, também: a resposta, é claro, vem no mesmo volume, para que ninguém ao redor perca o capítulo.
E tem a praia — que eu amava, ia sempre que podia, e da qual fui me afastando aos poucos, porque virou um lugar em que sou obrigada a ouvir o podcast, a chamada de vídeo em viva-voz ou o funk de quem trouxe caixa de som e resolveu que aquele pedaço de areia era local privado. Não escolhi nada daquilo. Só estava por perto, tentando ler um livro.
O problema não é o gosto de cada um
Reparem que, em nenhum desses casos, o problema é o gosto de cada um.
Ninguém está sendo julgado por gostar de vídeo engraçado, de funk, de podcast de política ou de desenho animado.
O problema aparece um passo antes, na convicção quase automática de que a própria vontade não precisa de fone, como se ninguém mais ali precisasse ser considerado.
É uma lógica parecida com a de um bebê muito pequeno, que ainda não separou o próprio desejo do mundo ao redor — para ele, o que sente é tudo o que existe, e o outro é apenas parte da paisagem que deveria atender às suas necessidades.
Crescer é, entre outras coisas, ir descobrindo que existe alguém do outro lado com um interior próprio, que pode discordar do meu volume, do meu horário e do meu gosto.
Menos ferramentas ou mais educação?
Não sei se cresci numa época mais educada ou se essa é só a lembrança confortável de quem não tinha celular nem caixinha de som Bluetooth para testar limite nenhum.
Provavelmente não fôssemos mais educados — só tínhamos menos ferramentas para impor nossos hábitos a todo mundo ao redor, e mais gente disposta a nos interromper quando exagerávamos.
Hoje há crianças crescendo no contexto contrário — celular no colo desde o berço, som ambiente o tempo inteiro, nem sempre alguém por perto para lembrar que existe um ouvido do lado.
Quando o espaço público deixa de ser público
E aí o assunto deixa de ser sobre celular.
Uma sociedade em que cada vez menos gente reconhece a existência de um outro autônomo é uma sociedade que vai perdendo, sem alarde, os lugares comuns — porque comum, aqui, quer dizer compartilhado, não gratuito.
Restaurante, avião, sala de espera, praia: são espaços que só funcionam quando cada um aceita abrir mão de um pedaço do próprio querer para caber ali com os outros.
Quando essa aceitação desaparece, o espaço público não some fisicamente — ele apenas deixa de ser público de fato.
Vira uma sobreposição de salas de estar particulares, disputando o mesmo metro quadrado de ar.
Será que sou eu a chata?
A cena, do início, arrancou minhas risadas mas emendou uma dúvida que reconheço bem em mim mesma: será que sou eu a chata? A sensível demais?
Vivemos numa época em que basta um incômodo para o Instagram sugerir um diagnóstico — sempre tem um termo novo por semana para explicar qualquer traço de personalidade, inclusive o de se importar com o próprio ouvido.
Rimos da ironia.
Mas o ponto que interessa não é esse — é por que, entre quem invade o ouvido do outro e quem se incomoda com a invasão, acabamos sempre investigando o incomodado.
Quem diz “isso me atrapalha” vira suspeito de exagero; quem produziu o barulho segue e convicto, sem sem implicar em nada.
Onde termina a minha liberdade?
Seria fácil escrever isso de fora, como quem nunca perdeu a mão. Não é o caso.
Reunida com as amigas, ou numa daquelas confraternizações de família italiana enorme, também já me perdi no volume da própria alegria, sem reparar em quem dividia o espaço comigo.
A diferença é que ando me obrigando, cada vez mais, a vigiar isso — a lembrar que há um outro do lado, com um ouvido que não pediu para entrar na festa.
Existe som coletivo que funciona lindamente: num show, numa festa, num baile funk, o volume faz parte do pacto — todos escolheram estar ali, e aqui não falo só de música.
O problema começa quando alguém resolve tudo com um “quem se incomodar que se retire”, sem jamais se perguntar até onde pode ocupar o espaço do outro.
Não tenho a solução para o espaço coletivo. Tenho só esse esforço diário de me refrear antes de ocupar o ar dos outros com o que sinto — e o convite, tímido, de perguntar:
onde termina a minha liberdade e começa o silêncio que o outro também merece?
source https://www.folhavitoria.com.br/cotidiano/sua-felicidade-em-alto-e-bom-som-no-meu-ouvido/
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